ODE A HERMES
CURADOR
Na morta penumbra da estrada eu caminho
E trago comigo umas tantas canções,
Mortais e imortais entretive sozinho,
Após a labuta do dia, diversões.
Que corres sagaz a entregar? Pois me diz,
Estou curioso com tudo que vi,
Agora é p'ra ti que dedico o clamor,
A ti, meu senhor, clamoroso fulgor!
Ó Hermes de pés rapidíssimos, vem,
Caminhas veloz enfrentando os perigos
Que nestas viagens atentam e surgem
Tentando lembrar-nos terrores antigos;
E neste lugar, tortuoso e vazio,
No qual se cultua entidade invisível,
Tu rompes a farsa, a soberba areal,
Poder da palavra acabando co'o Mal!
E quem mais iria fornecer esta força
A que é insuperável, sutil e verbal,
Aquela que tanto eu desejo que possa
Mudar este mundo de modo total,
E não existe nada que não vás mostrar,
Não tenho nenhum professor que fará
As mesmas proezas das quais és capaz,
Pois sabes de tudo e também passarás!
Recordo de lendas antigas e caras,
E mesmo que vagas, conservam ainda
Registros sagrados de glória tão rara,
A qual, sempiterna, não esbate ou termina;
Travesso, tomaste de Apolo o tal gado,
Criando também, em fantástico ato,
A Lira, completa em poder e nos sons
E Zeus fez-te deus, deslumbrantes teus dons!
E pelas florestas funestas, montanhas,
Riachos ou lagos, nuvens ou cidades,
Protege-me quando eu passar por estranhas
E gélidas pontes medonhas, miragens,
De mesma maneira que fazes co'as Almas,
Protege-me enquanto navego nas barcas,
Pois aos saberes conduzem, o douro
Mutável, secreto, escondido no escuro!
E sei que parece que não sei cantar,
Pois toma-me certa incerteza na voz,
Ajuda-me, Hermes, e peço a adornar
De verde, de prata este canto veloz,
Da mesma maneira que lembro das lendas,
Eu lembro de minha eloquência nas fendas
Do mundo fazendo mudanças astutas,
Toldaram-me a Graça vergonhas imundas,
Destarte, o que quero alcançar, finalmente,
A graça dos Ares, a agudeza do Verbo,
Estou bem disposto a lutar p'ro presente
Ganhar, sem temer consequências, sem medo!
Termino esta oitava a dizer que farei
Teu nome ecoar por tal erma sem lei,
E todos irão o caduceu conhecer,
A luz do Conceito que fulge no Ser!