O POSSÍVEL
FRATER PARAGON
Sou capaz de intuir o que é possível,
O irrefletido espelho não me engana,
Vejo a matéria vasta indivísivel,
E por isto mantenho minha gana;
Cada coisa secreta é ensinamento,
Cada forma nublada, forma alada,
Quando encaro o vivaz do firmamento
Não quero a concretude; busco o Nada.
Porém, com minhas mãos tão friorentas,
Anseio por roubar luzes e estrelas,
Evitando gongóricas tormentas,
Luzes além de todas - queres tê-las?
Velas na escuridão dos abstratos,
Cintilando sutis (Bem sutilmente),
Não incidem sobre meus mudanos atos,
Minhas Ideias guiam; sou insistente.
Neste negro oceano onde a Verdade
Habita lado a lado co'a Mentira,
Nas duas transitar, ter Liberdade,
Aquela que ninguém a posse fira;
É onde me satisfaço e sou completo,
Mergulhando na bruma do irreal,
No que foi indefinido; no que é incerto,
Acessível por clave sideral.
Não temo o frescor vindo do distante;
Pois já o visitei, mesmo que em instante.