A AURORA
ALEKSANDER STAJMEVIT
De vossas bocas sangue
Verte nas mais tremendas quantidades;
Cada palavra faz
Um corte, uma ferida na tal trama
Do que chamar-se pode de bom senso.
Pergunto-me o porquê
Desses estranhos hábitos mantidos
Por vós, que sois profetas da desgraça;
Pois vossos olhos, sei, já dizem tudo,
Pois vossas mãos, (as vi) planejam mais,
Pois sei que vós quereis uma certeza,
Um cristal refletindo
A mente do metal,
O estômago das joias,
E os castiçais antigos, que quereis
Somente p'ra erigir os vossos púlpitos.
Se o Nada vejo quando vos exponho?
Se uma perversidade mais vazia
Ronda o coração nosso (é uma pantera)?
Eu vejo o que percebo
Pois percebo o que vejo,
As fragrâncias sutis e adocidadas
Das imagens que vós, caros profetas,
Fazeis de tudo para nos proibir.
Vedes a nós talvez como crianças,
Ansiando por tudo,
Mas sem a prontidão
Ou ferramentas boas
Para a percepção compenetrada;
Mas vos digo que somos mais perfeitos,
Com frescor que não tendes, fósseis velhos,
Pois somos Castiçais, porém novíssimos,
E temos cristais muito mais sublimes,
Feitos de azul, poeiras tão luzentes
Das cadeias erguidas pela Lua.
Parem de verter sangue,
Calem-se resignados,
Pois nós vos mostraremos
Como se faz a Aurora.