A POEIRA
ALEXANDER STAJMEVIT
Unidas ao purpúreo destes céus,
Eu vejo imagens várias da poeira
Que entre os arranha-céus se faz presente -
Invisível, ela dança.
As gaiolas não tolhem-na jamais
E existe um rastro tênue somente,
Uma trilha confusa de neblina
Onde ela permanece.
Contudo, aqui confesso-te: é difícil
Segui-la ou seguir este incerto rastro,
Talvez seja mais simples esquecê-la
E ignorar que vive.
Porém, consideramo-nos aqueles
Que, andando entre os cafés iluminados
Com telas e mais telas que nos mostram
Pretensa realidade,
Insistimos, atrás de tudo aquilo
Percebido por nossos olhos mesmo
(Na verdade, corrijo-me: por causa)
De estarmos sem par de óculos.
Esta poeira torna-se presente
Em nossos pulsos, mãos, em nossas mentes;
E talvez ela invada estes pulmões
Fatigados depois
De poluídos ares infernais,
Como viessem lá de rachaduras
Que acesso dão ao magma sangrento
Desta terra em que andamos,
E por nos preencher tão sutilmente,
Sentimo-nos melhores do que estávamos,
E é dádiva capaz ser de vagar
Com tamanha leveza.
Martins tanto falou de corações
Que elavam-se nos ares. Será que isto
É o fenômeno ao qual se referia
Com suas próprias cifras?
Mas se quero sutis visões fantasmas,
Tampouco me interessa a explicação
E saber a verdade só se torna
Relevante bem quando
Paramos um momento para rir
Deste concreto bruto e destes vidros,
Os soberbos altares nos quais todos
Virarão sacrifício.
Ante isto, bem melhor tornar-se pó.