FRATER PARAGON


NOME VERDADEIRO: ADAM BLACKTHORNE

IDADE: 120 ANOS (MENTAIS)

ALTURA: 177cm

COR DO CABELO: CASTANHO

COR DOS OLHOS: CASTANHO

LOCALIZAÇÃO ATUAL: ÁRVORE DE GADARADAG, IDEAPLANO

ANIVERSÁRIO: 09/11

UMA BREVE APRESENTAÇÃO EM VERSOS


Eu sou somente eterno buscador
Por Deveres e Reinos enfarado,
Munido com tremendo destemor,
E pela Rosa Azul agraciado;

Conhecedor de técnicas antigas,
De viagens por Terra ou pela Ideia,
Cantador de fantásticas cantigas
Que assustam partidários da Matéria...

Intelectual e aristocrata,
(E mesmo assim deploro a Tirania,)
Transformo o Sol e a Lua em Ouro e Prata,
E se eu pudesse, tudo mudaria...

Frater sou (bem servi minha morta Ordem,)
Parágono, pois faço-me exemplar,
São muitos os que tudo fazem, podem
E inda assim não me logram superar!


NAS PALAVRAS DO PRÓPRIO


Diferente do texto que escrevi para o Ideaplano, desta vez sou confrontado com novo desafio: não é introduzir o assunto, mas sim introduzir-me propriamente; pois este, diferente daquele, é o espaço correto para coisa dessas. No entanto, se algumas dúvidas minhas foram sanadas, sou afetado por outras, as quais penso serem distintas em natureza: o quanto revelar e no que me aprofundar? Sobre o que devo falar apenas superficialmente e no que preciso delongar-me para que eu e minhas decisões (e minha personalidade, também) sejam de fato compreendidas? Não sei. Talvez não haja resposta, e sim apenas intuição, uma que parece ao menos apontar os caminhos corretos a serem seguidos. Neste caso, que seja; hei de trilhá-los para apenas depois ver se os resultados são satisfatórios ou não.

Primeiramente, embora seja na língua portuguesa que eu me comunique, este não é meu idioma nativo, e, apesar de meu nome de nascimento, não sou britânico, americano ou quaisquer que sejam as outras aparentes opções. Sou de país inexistente nos mapas e continentes deste mundo, inacessível por mar, céu ou terra: Walden, monarquia constitucional realmente peculiar em sua cultura e processos internos. Foi lá que obtive compreensão instintiva e cristalina do que se trata a Misterarquia, ao menos numa de suas mais explícitas manifestações: a de organização estruturada como ordem iniciática, a qual, por deter muitos conhecimentos aos demais toldados, consegue ditar os rumos da sociedade e do mundo em geral. Pois o rei, e nisto dou razão para Martins Rex, muitas vezes não passa de mera fachada pela qual forças mais insidiosas operam; incomodam-se as massas de serem regidas por entidades amorfas, sem rosto, pairando naquele mar do abstrato sobre o qual me apetece tanto dissertar, e isso sempre pede por disfarces agradáveis.

Ainda sobre a Misteriarquia, meu pai era importante figura na Ordem dos Cavaleiros de Walden, a organização responsável por controlar o país. Isto me garantiu, acima das vantagens mais óbvias, sentimento que passaria a corroer-me: de que sempre havia algo mais a ser explorado, nova perspectiva, novo segredo, antigo mistério... nada era e nada poderia ser tomado pelo valor nominal.

Mas estou desviando do assunto; tenho de falar sobre mim. Fui criança de saúde relativamente frágil, e é possível que não tivesse chegado à idade adulta se não fosse pelo advento de excelentes médicos particulares e de ambiente propício à minha recuperação e repouso apropriados. Como é comum nesses casos, refugiei-me na leitura, hábito muito incentivado por meu pai; e este permitiu que eu explorasse sua gigantesca biblioteca, tendo pouca ou nenhuma objeção quanto à minha avidez por conhecimento e por experiências, quaisquer que fossem; suas gravidades e importâncias não me assustavam - e, se algo, me motivavam. Não foi neste ponto, entretanto, em que me declarei poeta ou algo do tipo; isso só aconteceria mais tarde, na minha adolescência, quando entrei para a Ordem de meu pai e encontrei sujeitos com as mesmas aspirações. Como mencionado brevemente noutro texto, éramos ambiciosos e tínhamos enormes egos que iam de mãos dadas com esta ambição. Conseguimos fazer com que nossas obras fossem conhecidas internamente, que muitos de nossos irmãos - ou fráteres, se assim fizer mais sentido — interessassem-se por aquilo que tínhamos a dizer. Almejávamos a fama mais ampla, e perseguimo-na por bastante tempo — antes como coletivo, o Grupo dos Sete, que como meros indivíduos.

É difícil para mim discernir qual foi o momento fatídico — algo que escrevemos? Que ousamos revelar aos incautos das massas? Não faço a menor ideia. O fato é que foi o estopim para que uma série de eventos completamente aberrantes fossem desencadeados; ceifaram-se os membros do grupo, todos e cada um, comigo sendo a única exceção. As mortes não pareciam relacionadas ou incidentais, mas isso foi o suficiente para que meu pai, num gesto severo de proteção, tivesse de me exilar da Ordem, forjando para isto infração palpável com a qual pudesse justificar a medida. Não foi algo fácil, embora tenha surtido efeito: quem quer que estivesse atrás de mim perdeu a vontade de me assassinar. Obviamente, não recebi isso de forma leviana, e esses eventos foram responsáveis por desencadear crises de insônia (ou, se não estas, terrores noturnos) que persistiriam até o momento da Troca, ponto importantíssimo sobre o qual pretendo discorrer mais adiante.

Contatos aqui, contatos ali, descobri nova Ordem da qual podia fazer parte, isto depois de dois ou três anos. Porque, afinal de contas, sentia-me totalmente desprotegido, mesmo longe da Ordem dos Cavaleiros; e também porque os graus que eu adquirira não continham mais que lições morais e intelectuais — eram necessárias, sim, porém insuficientes contra habilidades sofisticadas. Após certos processos — burocráticos, não mágicos — intensamente desorientadores e tediosos, deixei de ser neófito, ganhando o direito de aprender sob os auspícios da Ordem da Rosa Azul, símbolo no qual baseio aquele que hoje me representa a nível pessoal; convém falar, aliás, que o causo do Ideaplano tem a ver com como consegui que o Grão-Meste (sujeito bem acessível, dada sua posição e responsabilidades) me admitisse. A partir daí, tanto pelas experiências anteriores quanto pela obsessão em descobrir o que matara meus amigos, minha progressão mostrou-se uma das mais excepcionais. Fiz novos amigos, atraí a atenção de novos inimigos; desta vez, não unicamente pessoais, mas sujeitos que já tiveram desavenças com a Rosa Azul no passado e que achavam-se no direito de tirar suas respectivas satisfações. Para eles, não acabou bem; e, em pouquíssimo tempo, pude consagrar-me o Grão-Meste, algo que se consumou no afastamento do Grão-Meste anterior de suas funções e em minha aclamação universal como resolvedor de crises.

Um dia, no entanto, a Rosa Azul foi atacada. Nossa sede no Ideaplano sofreu pesadas baixas justamente quando estávamos reunidos para ritual específico, um dos únicos de seu tipo a ser realizado em muito, muito tempo. Alguém sabia de nossos planos, alguém conhecia nossos tomos; algúem sabia de um momento onde estaríamos todos juntos. No meio do caos com o qual fui castigado (perdendo, pela segunda vez, o que havia construído com sangue e suor), restavam-me pouquíssimas opções: ou eu embarcava na busca por respostas, ou aceitava que, mais cedo ou mais tarde, o fim também chegaria para mim. Então, decidi realizar a Troca, feitiço proibido em que minha consciência desprender-se-ia do corpo físico, restituíndo-se inteira e consistentemente no Ideaplano. Despedindo-me de meu pai, de minha mãe e lhes explicando tudo o que ocorreu (e também dizendo que eu mandaria notícias, dentro do possível), fui em frente e cruzei o limiar.

Passaram-se anos; eu falo tanto de buscas porque, a nível estritamente pessoal, elas passaram a significar minha eternidade e a redefinir meus propósitos, antes muito mais mesquinhos, e, ouso dizer, muito mais limitados em escopo (alguém que já é rico em matéria não deveria ser tão obcecado por isso, afinal). Após conjunto particular de circunstâncias — falarei delas depois, prometo —, encontrei um pequeno Reino, dimensão a parte, onde se situava a Árvore de Gadaradag, misto de templo, secretíssimo covil de operações e local onde várias outras dimensões entrecruzavam-se através de portais. De lá, ampliei as buscas, mas decidi que as minhas peripécias também tinham de ser ampliadas. Se antes meu material escrito servia unicamente para dar-me fama e satisfazer-me pessoal e intelectualmente, agora ele serviria como ferramenta, como forma de mostrar aos outros que devem perserverar na procura do que quer que desejem, que devem insistir em respostas entretecidas e não dar-se jamais por contentados, não antes de ver por si próprios a crueza do mundo. Por um alinhamento de propósitos e pelo sucesso de feitiços, deparei-me com o Curador, com quem conversei bastante, e, de nossa conversas e de nossos objetivos razoalmente alinhados, surgiu a ideia de contribuir para Aldernea.

Então, é por isso que estou aqui; é por isso que falei desses eventos, ainda que em resumidíssima e paupérrima versão dos fatos. No entanto, para entender o caráter de um sujeito, deve-se entender suas inclinações, suas escolhas de vida, pois são estas que moldam-lhe a personalidade e tornam-lhe aquilo que deve — ou que não deve — ser. E, se sou arrogante, não se trata de crer-me melhor que os outros de fato; pois minhas únicas qualidades realmente superiores são a curiosidade e a inquietude, ambos traços excepcionalmente justificados pelas experiências que presenciei.