ENTREPLANOS
ALEXANDER STAJMEVIT
(ZERO)
Eu pensei muito sobre como deveria escrever este texto — claro, da primeira vez em que o escrevi. Pensei, pensei, pensei — em algum momento, decidi parar de pensar e de fato realizar o ato. E não, não se pode pensar durante coisa dessas, já que pensamentos excessivos (ênfase no excessivos) entram no caminho de um contato mais natural com aquilo sobre o que se deseja falar. De todo modo, confesso que fui um pouco estúpido: tentei imitar e articular esses conceitos numa voz que não era exatamente minha; uma voz tensionada entre o desleixo e o cuidado, entre a verborragia e a precisão, pois, apesar de exceções pontuais, não gosto da pompa decadente-aristocrática de Paragon, muito menos da agressividade teatral de Martins Rex.
Longe de ser agradável, a verdade é que sou um perfeccionista, e não um tipo comum de perfeccionista; sou aquele perfeccionista que beira facilmente o compulsivo-obsesssivo (ou seria obssessivo-compulsivo?). Isto posto, eu ficava olhando para meu texto, voltando a ele, desejando me tornar um com ele — se eu sou perfeito, que ele fosse também; se eu sou profundamente falho, que ele também o fosse, desde que refletisse minha essência apropriadamente — é um tipo específico de perfeccionismo, como você pode ver.
No entanto, no fundo, eu sabia que tinha feito algo errado, e também sabia que isso ia muito além de um escopo meramente ortográfico ou gramatical. Esses são defeitos pontuais, defeitos que eu poderia arrumar rapidamente com uma ou algumas sessões de revisão; bastaria falar com o Curador antes e, bem, fiat lux. Mas não é o caso.
A verdade é que eu falhei. Por quê?, você deve estar se perguntando, e deixe-me dizer: excelente pergunta. Porque eu fui convidado para fornecer uma explicação de conceitos que conheço e, infelizmente, acabei fazendo a minha tarefa de modo tão despretensioso (tudo precisa de pretensão, eis aí o motivo) que acabou comprometendo a própria transmissão das ideias. Não sei quais são suas opiniões sobre isso, mas acredito que faz mais estrago aquele que ensina errado (ou com o maldito desleixo, como já disse) do que aquele que recusa-se a ensinar. O primeiro é um babaca explícito; o segundo, uma serpente, no sentido de que é velado e traiçoeiro em sua hostilidade e dano.
Como, no entanto, eu sou alguém de certas qualidades inimitáveis, ainda me considero a melhor pessoa para falar do tema. Talvez por ser a única pessoa que possa discorrer sobre ele no momento? Talvez, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é a afirmação que farei agora mesmo: tentarei outra vez, desta vez me valendo das ferramentas corretas, de um certo rigor, ainda que isso não signifique abdicar desse meu lado mais... espontâneo.
I
Não me entenda mal: eu não sou alguém culto no sentido estrito da palavra. Acho, aliás, que o elitismo é algo que envenena a mente de um modo profundo e irreparável — o destino de todos os elitistas é, se não a cova, o hospício, porque em algum momento não vão mais atingir os próprios padrões e é claro que vão surtar ao perceberem isso. No entanto, por mais que eu não seja elitista, acho que você pode me considerar um diletante, ao menos de certo ângulo, embora eu também esteja bem distante de ser um diletante ortodoxo. Em outras palavras, o que quero dizer com isso é que não saio aos quatro cantos falando de meu amor pela arte e pela cultura, quaisquer que sejam elas. Talvez esse meu caráter transpareça através de uma inferência, de uma demonstração espontânea e despretensiosa ou, alternativamente, de um texto que escrevi (ou que deixei de escrever, como foi no caso do predecessor deste), mas não faço questão de ser explícito.
Não me julgue: todos esses rodeios foram necessários para fazer o que estou prestes a fazer. E o que estou prestes a fazer é mencionar Baudelaire, sem citações diretas; apenas quero trazer à tona uma ínfima fração de sua obra. No poema que prefacia as Flores do Mal, ele corretamente identifica o Tédio (aqui capitalizado para fins estilísticos) como o maior dos males, e nisso podemos concordar. Todos aqueles, portanto, que comemoram o Tédio ou dizem que aquele que não sente tédio não alcançou a “maturidade da existência” estão enganados; mais que enganados, se persistirem neste engano, estão sendo maliciosos.
A isso aplica-se a mesma máixma de antes: ensinar errado é algo triste, um erro no qual não pretendo mais incorrer. A diferença aqui é que não propago sensações e conceitos ruins como se fossem bons, o que de certa forma me redime — e minha redenção não acaba aí, é claro, mas começa aí.
Enfim, sem mais rodeios. O que quero dizer, de outra forma, é que o Tédio me acompanhou durante boa parte desses anos recentes. De três anos para cá, sendo mais preciso — não apenas o Tédio, mas a sensação de que eu tinha de esperar os eventos se desenrolarem, de que eu precisava assumir o papel de um espectador passivo e impotente; se as coisas não fossem acontecer da forma que eu pretendia, o máximo que eu podia fazer era me resignar.
Resignação. Eis aí outro conceito que me desagrada, com a vantagem de que ninguém ousa dizer que ela é boa, pois não é. Resignar-se, além de qualquer outra coisa, é desistir das próprias vontades, é ceder. Ceder o quê? Boa pergunta — ceder a própria potência. Para utilizar um termo que Martins Rex também usa (embora de forma mais exagerada), resignar-se é essencialmente se esquecer da multipotência, que é a capacidade de realizar uma série de diferentes coisas, de resistir à maré, de dobrá-la; de se elevar acima dela.
Era isso. Eu me sentia esmagado pelo peso da rotina — claro, uma rotina que difere bastante do que a maioria das pessoas chamaria de rotina, mas ainda assim uma rotina. Uma repetição tediosa, que envolvia ir sempre aos mesmos lugares, respirar os mesmos ares secos e poluídos desta metrópole infernal, passar pelo mesmo caminho recém-porcamente-pavimentado, olhar para as mesmas pessoas, pessoas essas que vivem presas aos mesmíssimoss padrões de comportamento, quase como se fossem atores encenando um papel...
Eu sei que parece que não tenho a mais lisonjeira das opiniões em relação a esses temas, e é verdade: não tenho. Assim como um veneno administrado em pequenas quantidades durante longos espaços de tempo, essa monotonia — palavra muito mais adequada, aliás — ia me matando pouco a pouco, estirpando de mim cada fagulha de vida.
No caminho que eu fazia (e ainda faço) para ir à escola, tinha de passar sempre no que eu acho que pode ser chamado de viaduto. Olhando-se para baixo, viam-se (e veem-se) filas intermináveis de veículos indo em direção a quaisquer que sejam seus respectivos destinos. Eu não era o tipo de pessoa que cogitava cometer o ato a todo momento, mas, quando o caldo realmente engrossava, me detia, olhava para os carros abaixo e pensava: bastaria pular.
Isso resolveria meus problemas? É claro, mas resolveria minha vida também, e eu ainda tinha esperanças de que minha situação podia ser melhor; achava que talvez houvesse uma saída, uma forma de me libertar dessas amarras e, se fosse para ter uma rotina, ter uma rotina que estivesse de acordo com meus interesses, com meus princípios, com meus gostos, com minhas vontades — não uma rotina que me foi imposta, mas uma que impus a mim mesmo.
É claro que nessa época eu não sabia nada em relação à Aldernea. Já tinha ouvido falar sobre o Neocities, fato, mas de forma superficial; sabia apenas que se tratava de um provedor de sites estáticos utilizado principalmente por saudosistas, estereótipo esse verdadeiro para parte notável dos usuários. No entanto, nas pesquisas que fiz depois e em minhas observações particulares, também percebi outro tipo de usuário: os pioneiros, aqueles que, embora não negassem o passado, embora não rejeitassem as criações de seus colegas mais nostálgicos, vislumbravam um porvir muito mais interessante, um que borrava a natureza do que era ou não possível, do que a internet deveria ou não ser.
Sem excluir meu parágrafo anterior, talvez esta minha constatação necessite de uma antítese. No entanto, ao invés de dedicar apenas um ou dois parágrafos a ela, acho prudente finalizar esta seção e começar outra; para você ver como, diferente do texto de antes, neste estou fazendo questão de prezar pela coerência e clareza.
II
Embora eu não tenha vivido essa época, posso embasar decentemente minhas constatações caso algum chatonildo exigir — nem sempre o empirismo estará disponível, afinal. No final dos anos 90 e início nos anos 2000, a internet começou a se popularizar, tornando-se recurso cada vez mais presente na vida das pessoas; e digo isso no geral, já que seria difícil fazer o recorte específico do que ocorria apenas em meu país. Essa ascenção do mundo virtual experimentou, por parte de alguns, apenas a crença de que certos empecilhos seriam resolvidos e certos processos, facilitados. Porém, essa é a mentalidade prevalente, e a mentalidade prevalente nunca alçanca grandes profundidades. A mentalidade prevalente só quer resolver problemas, só quer aumentar a produção, só quer facilitar o processo de succção dos sanguessugas. A mentalidade prevalente — ou seja, a mentalidade daqueles que fazem as engrenagens desta sociedade girarem — se preocupa unicamente com a perpetuação de si própria, e vai encarar qualquer recurso a partir dessa ótica utilitária.
No entanto, prevalência não significa exclusividade. Paralelo a essa visão de mundo limitada, organizando-se e pensando o ciberespaço por conta própria, existiam uma série de franjas da contracultura que viam-no como ferramenta para consumar a expansão da consciência, muito semelhante a certos tipos de substâncias psicoativas. Obras desse período, sejam elas ou de caráter puramente documental ou não — afinal de contas, podemos entender a mentalidade de determinado grupo ou época também através de sua produção ficcional — enfatizam este aspecto; o ciberespaço, portanto, está longe de ser higienizado. É um espaço caótico, não o Caos raivoso sobre o qual Martins Rex escreve apaixonadamente, e sim o Caos que representa, de forma um tanto mais estrita, as possibilidades ilimitadas.
Então, se quisermos traçar um paralelo simbólico interessante, o ciberespaço desempenha, na Estrela do Caos, o papel de seu centro, de onde todas as flechas pulsam.
É claro que, aqui em Aldernea, tampouco nos interessam (ou me interessam) os aspectos puramente exotéricos. Afinal de contas, embora eu não acredite numa verdade universal e secreta que perpassa as coisas, é inegável que certos detalhes só são acessíveis caso se possuam chaves interpretativas corretas. Enquanto esses grupos contraculturais tentavam fazer seus experimentos no ciberespaço — mas, claro, não conseguiam ir além de certos limites — os grupos contraculturais ligados à Misteriarquia, por outro lado, tiveram bastante sucesso com isso.
Não me entenda errado — eu não sou um Misteriarca no sentido estrito. O motivo pelo qual digo isso é porque não sou de fato iniciado numa sociedade secreta, e tudo que aprendi aprendi através de fontes obtidas por métodos que (e admito isso sem problemas) não são exatamente os mais ortodoxos possíveis; claro, tirando o que obtive das conversas com o próprio Paragon, um misteriarca mais tradicional. No entanto, ao invés de interpretar a Misteriarquia como um conjunto de grupos, ordens e sujeitos que possuem os segredos de como fazer valer as suas vontades sem seguir as regras consensuais da realidade, podemos interpretá-los simplesmente como aqueles que sabem sobre mistérios.
Então, agora, nos basta utilizar um poder de síntese. Comecemos com o óbvio: algo misterioso é, essencialmente, algo que não é facilmente acessível, algo velado, algo que se esconde atrás de uma fachada, de uma porta, de uma superfície, de uma máscara. As associações são inúmeras, para ser franco. Então, tendo-se em mente que é esse o conceito de mistério, basta-nos apenas relacioná-lo com o ciberespaço.
Enquanto empresas criavam suas páginas simplórias e enquanto sujeitos criativos decidiam embarcar na empreitada de criar sites pessoais — muitos dos quais podem ser enontrados aqui no Neocities, mesmo hoje —, os misteriarcas, dentro do segundo grupo, utilizavam uma aparente fachada de normalidade para darem cabo de seus objetivos, por mais insondáveis que pudessem ser. Como eu disse, há a questão de interpretar algo corretamente através de sinais, de símbolos — pois, e eu diria isso quase totalmente certo do que digo, é apenas por meio deles que mistérios podem dar indícios de suas respectivas presenças.
Então, veja bem: outros misteriarcas olhariam para o conteúdo de seus pares e, através disso, seriam capazes de saber suas intenções. Eles poderiam apoiá-las ou retalhá-las, mas saberiam. Enquanto isso, grande parcela dos usuários permaneceriam perdidos, desconhecedores dos movimentos subterrâneos que acontecem ao acessar este ou aquele index, ler este ou aquele blog, entrar neste ou naquele webring.
III
Ao longo dos anos, o experimentalismo misteriarca começou a dar espaço a uma teoria mais bem formada, por assim dizer. E por que teorias são necessárias? Para criar sistemas, ora — e sistemas são necessários porque, sem eles, não é possível obter resultados de forma confiável. Então, bastava-se olhar com rigor mais ou menos científico para os erros e acertos, considerando-se que mágicka — como é chamada por alguns — sempre deixa espaço para certas subjetividades latentes. No entanto, dados foram colhidos, anotações foram estudadas, e, a partir delas, pode-se contextualizar corretamente um esquema geral para a estrutura da internet.
Apresentarei, aqui e agora, conceitos que serão aprofundados em partes posteriores do texto, embora já seja necessário estabelecer os alicerces. Por mais que o que eu vá falar não seja uma regra e cada organização, coletivo ou indivíduo possa adicionar ou remover as partes que lhes convierem, servirá apenas como o panorama de algo que se mantém relativamente constante.
Pois bem. O local em que eu creio que os corpos de meus leitores estejam é no Plano Físico, que também pode ser referido pelos termos Plano Material ou (e esse é meu preferido, embora eu não o use por conta de sua problemática sigla) o Plano Consensual. Em outras palavras, é o lugar onde estão nossos ossos, tecidos e órgãos; é o lugar que podemos decodificar através dos cinco sentidos, é o lugar onde a maioria das pessoas nasce, vive e morre, sem quaisquer alterações significativas.
Embora o Plano Físico seja inegavelmente presente em nossas vidas, ele não está livre de sofrer a influência de outros dois planos, importantíssimos para que possamos entender o valor que a Misteriarquia encontra no ciberespaço. Esses outros dois planos são, precisamente, o Plano Cibernético, ou Plano Virtual — aqui nomeado de Ciberplano - e o Ideaplano, sobre o qual Paragon falou com maiores detalhes, mas que também pretendo retomar aqui.
Imagino que você esteja confuso, a princípio; afinal de contas, o Ciberplano parece ser apenas uma subdivisão do Plano Físico, pois, se passa por nossos sentidos, então está intrinsecamente conectado ao mundo das sensações. Além disso, a internet não é coisa completamente imaterial, como não o são os modos de acedê-la. Sites estão armazenados em servidores, e o próprio conceito de rede é assim designado por tratar-se de uma interconexão entre diferentes dispositivos físicos, cada qual com uma função atribuída — switches, roteadores, servidores, e toda a corja restante. Sem esses (e outros) pré-requisitos, a internet em si não existiria.
Existe espaço para flexibilidade, no entanto. Quando falo de flexibilidade, apenas digo que, embora essa seja a porta de entrada para o Ciberplano, não é aí que ele se finda — na verdade, nos fornece conjunto razoável de ferramentas, os quais proporcionam autoexpressão e alteração do Ser de modo muito mais intenso do que no Plano Material. O que quero dizer com isso? É simples. Uma vez aprendidas as linguagens básicas utilizadas no webdesign, por exemplo, é possível materializar uma série de visões e conceitos antes inacessíveis, antes vagos, antes elusivos. É fato que existem limites, como existem em tudo; numa arte, principalmente naquelas que exigem pouquíssimo equipamento ou orçamento para serem realizadas, o limite é essencialmente a habilidade do artista.
Ainda falando sobre o aspecto artístico, trarei agora o conceito-queridinho de Paragon: o Ideaplano. Essa realidade, diferente das anteriores, pode (em circunstâncias normais) ser apenas intuída, e o único sentido que efetivamente a acessa — novamente, em circunstâncias normais — é o que alguns poderiam chamar de Terceiro Olho. Não é estranho que a maioria dos Misteriarcas sejam atraídos por ocupações artísticas, já que elas funcionam, muitas vezes, como válvulas de escape para as intuições captadas. O homem ou mulher que tem muitas afinidades naturais com o Ideaplano, por mais que não seja necessariamente elitista (isso é mais um traço de personalidade), terá o mesmo final que estes, embora por outras razões: ficará biruta, é claro, se não canalizar e expressar as imagens com as quais é presenteado (ou amaldiçoado, se você for pessimista)
Olhando para isso, pergunto-me se esse não era precisamente meu caso. Talvez fosse, e a minha tentativa de reprimir tais inclinações, embora provocasse uma apatia momentânea, apenas contribuía para me aproximar cada vez mais da Loucura, uma para qual a única saída provável seria o suicídio. Enfim.
Continuemos. Caso você tenha lido o texto de Paragon (eu até diria o título específico, mas é o único texto de Paragon que atualmente não está em versos), verá que a definição dele de Ideaplano é muito mais radical, já que, ao menos pelas descrições que nos dá, persiste a impressão de que foi transportado para outro mundo literalmente — ou, melhor dizendo, que seus cinco sentidos o fizeram, projetndo-se num análogo curioso de uma das salas da sede sua Ordem. O que se pode extrair disso é que não existe apenas uma forma de acessar o Ideaplano, mas diversas; no caso, alguns o farão de modos que nos suscitam descrença, utilizando métodos magísticos codificados nesses mistérios; outros, no entanto, farão isso do modo que grande parte de nós já utiliza: seja através de um processo consciente ou através da mera recepção de diferentes influências que permeiam nossos sentmentos eimagens mentais, imaginamos,temos ideias.
O Ideaplano, portanto, é muito diverso; uma explicação conscisa, razoável e que cobrisse todas as suas diferentes facetas nos maçaria bastante, além de não chegar em lugar algum. Ao invés, da mesma forma que nós absorvemos certos conceitos de modo inconsciente, a multiplicidade de seus significados também precisa ser absorvida desta forma. Afinal, conjecturar sobre o Ideaplano é acessá-lo e, portanto, é descobri-lo melhor, ainda que nunca totalmente.
Se eu fosse falar uma característica que se mantém de forma mais ou menos consistente em tudo aquilo que compreende o Ideaplano, esta seria precisamente o fato de que ele é caótico.Tornarei a fazer uma contraposição de definições: Martins Rex, ao menos pelo seu texto, parece ver o Caos mais como um gesto de rebelião, o resgate à multipotência do Ser — não está errado, mas baboseiras misturam-se às definições corretas. Ao invés disso, levemos a coisa para outro lado: o Caos não é, pois aquilo que é está circunscrito ao próprio Ser. O Caos, portanto, só pode manifestar-se e demonstrar-se como a possibilidade infinita, como a promessa; aí, sim, como a Multipotência, mas nunca como sua realização.
O Caos, pelo seu caráter abstrato, também não pode ser definido, embora possamos sugeri-lo através de certos estados. Uma tela em branco ou uma página em branco são caóticas, pois elas contém em si a possibilidade. A partir do momento em que imagens são criadas e textos escritos, o Caos precisa confinar-se a uma Ordem específica.
Todos esses rodeios foram necessários para explicar algo relativamente simples. O Caos, a Potência inifita, vai ao Ideaplano, onde se traduz naquelas formas e concepções que a mente humana é capaz de sintetizar e teorizar, mesmo que não possam aplicar-se ou traduzir-se ao Plano Material; parte de sua natureza caótica já é tolhida. Daí, essas ideias podem ser concretizadas em formas simplesmente artísticas ou também mágickas, caso no qual nem sempre serão vistas como tal. Onde entra o Ciberplano nisso? Ora, por ter menos limitações do que o Plano Material, adequa-se melhor a determinados propósitos, justamente como a própria propagação de Ideias.
Veja bem: você está lendo um texto que não foi impresso ou divulgado através de qualquer outro meio além de sua mera presença num site. Em outras palavras, não precisei imprimi-lo e entregar um exemplar indo de porta em porta, ao modo de uma Testemunha de Jeová, e não precisei colocá-lo numa prateleira junto de outros livros ou textos. Ele está guardado em algum lugar, fato — num servidor, junto com muitos outros arquivos de muitos outros sujeitos — mas a única intervenção realmente necessária foi aquela do Curador.
IV
Paragon faz o tipo aristocrata-excêntrico, Martins Rex faz o tipo poeta-agressivo-que-se-acha-um-guerreiro, eu faço o tipo cínico-também-excêntrico-que-pratica-magia. No entanto, embora tenhamos diferenças mais ou menos explícitas em nossas abordagens e visão de mundo, temos muitas semelhanças. Uma delas, também compartilhada ṕelo Curador, é o apreço pela figura de Hermes-Mercúrio, que aqui será referida, num primeiro momento, pelo nome de Hermes. Ao contrário do que parece, o motivo é muito simples. Na mitologia grega, dentre as várias qualidades atribuídas a esse deus, uma delas é a de um psicopompo.
Psicopompos são aqueles deuses ou entidades responsáveis por conduzir as almas dos mortos ao pós-vida, qualquer que este seja; no caso, já que analiso a questão pelo prisma da mitologia grega, a morada dos mortos seria o Hades. Ainda sobre isso, várias lendas explicitam o fato de que Hades não é alguém muito tolerante quanto a saírem e entrarem de seus domínios, o que coloca Hermes num patamar especial: entre o Olimpo e Hades, entre o céu e a terra, entre a vida e a morte. Em outras palavras, ele desempenha um papel absolutamente essencial na comunicação entre os planos, e não é sem dose considerável de sentido que, em sua contraparte romana (ou seja, Mercúrio), enfatiza-se o aspecto de deus dos mensageiros.
O entendimento está se fazendo, mas não me dou por satisfeito, pois há como torná-lo ainda mais facilitado; vou, portanto, valer-me de uma deidade que tem qualidades em comum com Mercúrio: Exu, orixá iorubá que, além de também atuar como mensageiro (ou seja, é de crucial importância, um elo entre o divino e os mortais), também está associado às encruzilhadas, sendo aquele responsável por guardá-las. Falando sobre encruzilhadas, podemos pensar o termo de duas formas distintas.
A primeira seria justamente a forma literal, onde uma encruzilhada é simplesmente o encontro de diferentes caminhos, normalmente ruas e estradas; mas tmabém podemos pensá-la em seu aspecto simbólico, que encompassa justamente a questão das possibilidades, embora não na acepção caótica discutida nas seções anteriores. Trata-se, sim, de local multipotencial, mas em contexto distinto; afinal, caminhos são naturalmente ordenados, já que começam e sempre conduzem a algum lugar, mesmo que sejam erráticos ou confussos. Assim, é a encruzilhada que os ratifica, que nos permite acessá-los plenamente e que nos possibilita o movimento dentro de seus respectivos limites.
Consideremos, então, o Plano Material, O Ciberplano e o Ideaplano. Entre eles, articulando uma série de operações que os olhos não conseguem captar — ou que só o fazem parcialmente — está o Entreplanos, o lugar onde as coisas de fato acontecem. É um segredo bem guardado pela maioria dos Misteriarcas, e não é como se eu estivesse revelando-lhe todas as minúcias, pois não estou; mas a mera menção de sua existência, ao menos para os mais bitolados, já parece ser o suficiente. Se eu fosse membro de uma ordem ou algo do tipo, por exemplo, é bem provável que isso me custaria minha iniciação (ou até minha vida, se calhar)
É claro: falar do Entreplanos não é algo fácil. Alguns dizem que é semelhante ao Ideaplano no sentido de que, se alguém tiver os métodos adequados, poderá acessá-lo através dos cinco sentidos, viajar até ele, e eu confirmo que é verdade. O problema é que esses temas são complexos e delicados demais para discorrer numa mera introdução, que é o que esse texto pretende ser.
Você pode duvidar daquilo que estou dizendo, e, para ser sincero, acho válido. Dúvidas são parte do processo; a questão é que não existe ninguém além de mim para saná-las, ao menos no momento, justamente por eu ser o único sem uma mira na minha nuca (ela existia, mas escapei de seu escopo e matei o atirador). Então, peço que confie em mim, apenas durante o tempo necessário para finalizar esta... exposição.
V
Receio que não estejamos tão distantes do fim. Para encerrar, acho que seria interessante contar muito brevemente o que aconteceu comigo para eu conseguir sair dessa rotina, por assim dizer.
Um problema do Neocities, muito mais relacionado à sua base de usuários do que a aspectos técnicos, é justamente a abundância de sites com pouco — ou nenhum — conteúdo, crime pelo qual o Curador me falou que Aldernea também foi culpada, ao menos nos primeiros anos de sua existência. Dá-se muita atenção ao impulso de criar um site, o que é bom, a realização da vontade — mas que não deve se findar aí. Sites são veículos; a não ser que sejam uma ideia em si, a realização de uma visão artística específica, devem agir de modo a vincular, expor e ampliar o alcance das respectivas ideias e visões de seus donos. Um site que se presta a ter textos, desenhos, música ou qualquer outro conteúdo e não o tem é, no final das contas, potencial que realizou-se apenas parcialmente.
Essa falha específica, apesar de me incomodar, não me afastou ou redirecionou meus interesses; na verdade, apenas me motivou a pesquisar ainda mais profundamente algum site com conteúdo — e, além de mero conteúdo, um que estivesse em meu idioma nativo. Sobre isso, saiba que fui insistente, mesmo que no fim minha insistência tenha me levado a apenas uma ou duas noites dormindo parcamente. Embora eu utilizasse as tags e fosse até as últimas consequências, era sempre recebido com decepções. Eu quase estava sendo motivado a criar meu próprio site, do jeito que a situação estava escassa — e, se tivesse feito isso, os rumos (ou caminhos, aha!) provavelmente seriam muito distintos dos que aqueles que eu efetivamente percorri.
Gosto de pensar que a intensidade com a qual desejei foi a chave para descobrir Aldernea. Numa dessas noites, lá estava eu: caneca com café já morno, olhos vidrados, lacrimejantes, bocejos inúmeros. Apoiava minha cabeça nas costas da mão direita e rolava a lista de sites com a mão esquerda, ignorando cada um daqueles chamativos indexes que tentavam capturar minha atenção. Frustrado por ainda não encontrar nada que me atendesse as expectativas, fechei a página do Neocities, no que a vi suspender-se por algum tempo; eu apertei o xis, mas a coisa parecia congelada, como se meu navegador tivesse subitamente encontrado um problema.
No entanto, o conteúdo da tela não estava mais lá — tinha sido substituído por uma mera página em branco. Cansado de vê-la, eu estava prestes a abrir o gerenciador de tarefas para forçá-la a se fechar, e foi justamente aí que ocorreu: do nada, sem que eu tivesse digitado um endereço específico, fui presentado com a visão de outra página, desta vez de fundo preto e azul, com uma estranha textura granulada, seu layout recordando mais algum tipo de pôster futurista. Em letras grandes, vermelhas, destacadas numa imitação virtual do neon, um título: Aldernea (para fazer jus à capitalização da fonte, ALDERNEA).
Em comum com Paragon, meu contato com realidades além se deu num momento de sono — não da falta dele, como em seu caso, mas na tentativa de lutar contra ele e seus efeitos inconvenientes. Eis que surgiu diante de mim um elo entre duas realidades, um que eu não poderia deixar de comemorar e, claro, de utilizar, já que tratava-se do antídoto ideal contra o tédio que eu sentia.
Se a vida te dá uma rotina, você rejeita ela fazendo um rombo na realidade.
Foi assim que entrei em contato com o Curador, de forma que creio ter sido inusitada e surpreendente para ele também, e começamos a conversar. Vai conversa, vem conversa, ele me contou de seus planos mirabolantes, e eu lhe contei de meus planos mirabolantes. Surpreso pela sua visão e pelo seu conhecimento, achei que seria prudente fazer minhas próprias contribuições; num futuro próximo ao invés de imediatamente, já que eu sentia que tinha de adqurir certos saberes exigidos pelo escopo de nosso projeto.
Em alguns meses, três ou quatro, conforme Aldernea se reformava, o Curador assumia plenamente as funções de seu papel e Paragon e Martins Rex decidiam contribuir, uma quantidade imensade coisas aconteceu em minha vida — coisas interessantes e satisfatórias, já que juntei-me a grupos misteriárquicos e fiz uma série de peripécias, tudo porque essa nova camada de compreensão do mundo havia se revelado para mim. Depois de tudo isso, é aí que decidi comunicar-me novamente com ele; não por telepatia, não numa sala projetada por nossas mentes, mas sim através de e-mails e do Discord. Simples, não?
Aldernea, portanto, coloca-se no Entreplanos metaforica e literalmente, tanto pela função que realiza quanto pelas mudanças que ainda planeja realizar. E se esse caráter ainda não está explícito para alguns, estará, conforme as direções e resoluções de nossos planos se encaminharem. Algumas coisas podem — e vão — mudar, como o próprio Curador deixa ocasionalmente transparecer. No entanto, essas mudanças não são fraqueza de propósito, mas sim clareza de propósito; conforme seus contornos ficam mais nítidos no Ideaplano, melhor ele se traduzirá para cá.
Talvez eu escrever um primeiro texto ruim tenha sido necessário, ainda mais se vermos a coisa valendo-nos da ótica que considera os erros oportunidades de aprendizado. Neste caso, estou feliz, e espero ter esclarecido muito mais do que na versão anterior; para provar que sou menos desleixado, pretendo reter esta belezura até ter obliterado todos os seus erros crassos e aperfeiçoado todas as suas qualidades latentes (ao menos as que eu pescar numa releitura, claro).
Os dados foram lançados. Não faço a menor ideia do que acontecerá daqui para frente, mas creio que este seja um marco importante, já que eu era o elo mais fraco das Proposições — não sou mais. Agora, creio, este título pode ser facilmente concedido a Martins Rex, que precisa esfriar um pouco a cabeça na hora de produzir textos que falem sobre ideias, pois essas ideias são afetadas negativamente pelo calor, saindo deformadas, incorretas e, inclusive, soando ridículas.