V
FRATER PARAGON
Vê esta chuva cair bem lentamente
E lavar tua Dúvida e incertezas;
Tens muito mais que ardis incipientes,
Podes romper cadeias com surpresas;
Se tens de carregar vulpina máscara,
Também contigo leva minhas claves,
Fechaduras abriram-se, então faça-as
Mostrarem-se a ti; rouba o que não sabes.
O Mistério desejas, pois a Torre
É livraria antiga, inacessível;
E sei que és perseguido onde tu fores
Pelo anseio de achá-la; isso é terrível...
Agora vês? Não basta navegares
Em rios prateados de fulgor;
E tais rotas não basta calculares
Utilizando o Número, o Rigor.
Pergunto novamente: agora vês?
Já mais certo daquilo em tua frente,
E mais que ver somente, agora crês
Na presença ciclópica e luzente
Da construção liberta dos Espelhos?
Todas camadas somam-se, perfeitas,
Torna-se azul a fronte, e escaravelhos
Sementes lançam - nasce oculta seita;
Esta seita, no entanto, tu não deves
Aceitar; pois anseiam por roubar
A mais sagrada pena com que escreves,
Este lugar ainda por se achar;
Mesmo que te apresentem longas vestes
E demais paramentos ritualísticos,
Mesmo que muito peçam que tu emprestes
Teus saberes marítimos muito íntimos,
Mesmo que te ofereçam as travessas
Com as mais tenras carnes concebíveis,
Mesmo que satisfeito tu pareças,
Beberás as cicutas invisíveis...
Vê esta chuva cair bem lentamente,
E observa que o Céu não está pesado
Com simples gotas d'água, tão somente;
São as lágrimas de quem já foi enganado!