VIII

FRATER PARAGON


Para encontrar as falhas nos vitrais
Em cada vidro azul, vermelho, verde,
Lembra os conhecimentos naturais
Do que nem mesmo sabes que tu entendes.
Que grande Paradoxo, não é mesmo?
Como se saber pode sem saber?
É porque vagaste sempre, nunca a esmo,
Não tens de conhecer - pois é teu Ser.
Teus olhos já recobram Perfeição
Bem além das imagens, sentimentos,
É o que pelo que tens muita afeição:
Mas não no Coração; no Pensamento...
O mundo nesses vidros refletido
Em ti é como tambor - não só ruído.

E o mundo nesses vidros refletido
É distinto da cena lá de fora:
Copas verdes, no chão dourado trigo,
E no céu uma perpétua e viva Aurora.
Porém, tu não desejas superfícies,
Pois quem julga por elas fica tolo,
Transforma-se em tirano de Imundícies,
E tudo belo torna-se mui pouco.
Desejas, isto sim, penetrar
Na mais mínima falha que encontrares;
Pois mesmo recordando alto lugar,
É só fraca arapuca em que teus pares
Decidiram cair. Mesmo que espertos,
Talvez não fossem inda tão despertos.

Encontrando a tal falha, finalmente
Irás forçar entrada. Então prossiga,
Quando quebrar vitrais, não se lamente,
Cuida p'ra que essa falha ninguém siga.
Mas não é como fosse de valia -
Afinal, por si mesmos já estão cegos;
Ignoraram o Ouro que lá havia
E sobre si quiseram ter flagelos.
Sabes pensar mais novo, mais liberto,
Com tua paixão forte de Andarilho;
Sabes que a Estrada é longa, o fim incerto,
Torna a bater no peito: "livre, eu trilho".
Os cacos pelo chão estão bem dispostos:
À frente, vês soldados em seus postos.


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